Como mulher que passou a maior parte da vida em extrema pobreza, aprendi cedo a transformar o descontentamento em escrita. Por muito tempo, minha dor não encontrou plateia nem escuta — realidade comum a tantas mulheres marcadas pela maternidade solo, pela separação, pela discriminação e invisibilidade social. Seguindo o conselho de uma psicóloga, iniciei a escrita da minha autobiografia, gesto que se revelou mais do que um exercício de memória: tornou-se um ato de coragem e de justiça comigo mesma. Escrever e estudar passaram a ser o caminho para reconhecer meu valor e ocupar o lugar que sempre me foi negado.
A escrita permite uma retrospectiva profunda da própria vida, especialmente quando ela foi marcada por privações, silenciamentos e violências atravessadas pela classe social. Ao revisitar minha história, percebi algo essencial: mesmo tendo sido tratada como pequena pelo mundo, eu sempre fui gigante. Para mim, escrever tornou-se combustível e sustentação. Nos intempéries desta vida, sobrevivo pela arte e pelo estudo: quando não estou cantando, estou escrevendo ou estudando. Entre notas, letras e livros, não apenas resisto — eu me reconstruo.
A Escrita como Grito, Cura e Resistência.
No papel, posso gritar sem pedir permissão. É ali que expulso o que me fere, o que me atravessa e o que insiste em doer. Faço da palavra minha arma contra o medo, e da música, uma forma de cuidado num mundo que raramente cuida de mulheres como eu. A escrita é minha salvação quando o silêncio tenta me apagar. Hoje, esse movimento ganha corpo na minha autobiografia — um projeto que nasce da dor, mas também da consciência. Um gesto de quem decide ocupar o próprio espaço com dignidade, mesmo depois de ter sido empurrada para as margens.
Amparada por autores como Paulo Freire, compreendo que somos seres aprendizes, inconclusos e sempre em travessia. Nunca estamos prontos, especialmente quando a vida nos exige amadurecer antes do tempo. O estudo transformou minha forma de ver o mundo e a mim mesma: ensinou-me a escutar, a nomear a violência, a compreender as estruturas que produzem injustiça extrema. O saber não apaga a dor, mas a transforma em palavra — e a palavra em resistência.
Para Refletirmos Juntas
Uso a letra e a melodia como gestos políticos e poéticos, para que meu “eu” — e o de tantas outras mulheres — nunca mais seja apagado. Convido você a refletir comigo:
- Em que momentos a sua voz foi silenciada ou desautorizada por causa do seu gênero, da sua classe ou da sua condição de mãe?
- Você já pensou em escrever sua própria história como um ato de libertação e de enfrentamento da invisibilidade?
- De que forma a educação e a arte têm lhe ajudado a resistir, a se reconhecer e a continuar, mesmo em meio à injustiça?
Dicas para a Postagem:
- Categoria: Selecione Educação & Cultura.
- Imagem de Destaque: Uma foto sua escrevendo, ou uma imagem que remeta a partituras e cadernos, traria um ar muito pessoal e autêntico.
- Tags: #Autobiografia #PauloFreire #ResistenciaFeminina #LetrasUFU #MusicaETerapia.

