Um manifesto para mulheres que sobreviveram
A violência contra a mulher quase sempre é contada pelo desfecho trágico. Pouco se fala sobre quem permanece viva. Hoje, escrevo para você que, como eu, atravessou o vale da sombra e sobreviveu. Eu sei o que é estar sob a mira de uma faca, com a morte respirando no mesmo espaço que o meu corpo. Sei como o tempo se estilhaça diante de alguém violento que dizia amar, mas transformou o amor em ameaça por não aceitar o fim. Conheço o terror de uma hora que não passa, que se arrasta como tortura.
Mesmo estando no meio da rua, é como se o mundo tivesse desaparecido — não há polícia, não há socorro, não há ninguém. O medo apavora, o desespero envolve como um abraço sufocante. Você não sabe o que fazer. Resta apenas rogar a Deus que te livre e te guarde, que afaste a morte e mude, ainda que por um instante, os pensamentos daquele que ameaça a sua vida.
Sei o gosto da dor de um golpe no rosto, o impacto seco que faz o mundo girar, o olho fechar, o corpo ceder até as pernas não sustentarem mais. É nesse instante que a vida se apaga por dentro: as cores desaparecem, o som se afasta, e tudo se transforma num preto e branco gélido, onde só existe medo e a sensação brutal de que talvez não haja amanhã.
Por graça divina, consegui fugir. Deixei para trás estudos, pertences e, com o coração rasgado, um filho pequeno de um ano e meio. Nos braços, carregava apenas minha bebê recém-nascida e a promessa frágil de um amanhã.
Naquele período, a revolta me acompanhava e o desejo de desaparecer rondava meus dias. Ainda assim, era por ela que eu me levantava todas as manhãs. A força não vinha de mim — vinha daquele pequeno ser, tão inocente. Mesmo quando o sentido da vida parecia dissolvido pelo medo, eu continuava. Pelos meus filhos, eu resistia.
Se você ainda está no escuro, leia isso.
Se você passou pela violência ou esteve próxima da morte, saiba: sua história não termina no trauma.
• A dor não é o seu destino. O preto e branco da sobrevivência é um tempo de luto, mas as cores voltam quando você se reconecta consigo.
• Partir é um ato de amor. Recomeçar, proteger seus filhos e honrar o nome de mãe é um gesto de coragem.
• Você não está sozinha. Quando nos calamos, o agressor se fortalece. Quando falamos e somos ouvidas, a palavra nos liberta.
Hoje sou pedagoga, mestranda, graduanda em Letras e em Psicopedagogia, pesquisadora. Mas, acima de tudo, sou uma sobrevivente. Aprendi que a educação e a arte podem devolver o arco-íris à alma de quem resistiu.

